sábado, 16 de maio de 2009

DS - Redemption - parte 2 - Onde se conta como um homem recebeu em mãos a chave do inferno




O velho relógio de parede, suíço legítimo, presente do avô, marcava cinco horas e trinta minutos quando Seu Nildo entrou na sala de Klaus.
Sem bater, sem pedir licença e sem fazer qualquer cerimonia o zelador, como quem acabara de ver uma alma penada, disparou afobado:
- Doutor! Não queria incomodar agora, mas como nunca vi nada igual a isso antes decidi por traze-lo antes que o senhor fosse para
casa. Fui tomar a minha branquinha das cinco ali no bar do Trindade, como o senhor bem sabe tenho essa saúde graças a ela, é bom para o coração...
- Vinho, Givanildo, vinho! Você deve ter ouvido por ai que beber uma taça de vinho todos os dias faz bem ao coração, não é? Pois fique o senhor sabendo que não se deve tomar como verdade absoluta tudo o que vê, ou escuta, mesmo que a fonte da informação pareça ser sagrada, acima de qualquer suspeita! A medicina não é uma ciência exata! Existem grupos de cientistas que defendem o consumo moderado de cafeína, mas ao mesmo tempo, do outro lado da história, existem pesquisadores que lutam ferozmente contra essa idéia. A ciência cria uma ‘’verdade’’ hoje, mas amanhã ela a destrói. Em apenas dez anos, muita coisa que esta nos livros de ciência usados nas escolas de hoje, terá de ser revisada e corrigida! Você é capaz de compreender esse processo? A questão é complexa, muitas vezes nos coloca diante de um dilema, um paradoxo...
- É doutor, o senhor tem razão, mas não tem precisão de tanta preocupação. Essa minha pinguinha não tem essa tal de cafeína! O velho Trindade me garantiu que o produto é da mais alta qualidade, veio do alambique do Mineiro, de Januária em Minas.
- Seu Nildo, parece-me que o senhor entendeu realmente tudo! A conversa esta agradabilíssima, mas estou em minha hora, portanto deixemos a cachaça e a ciência de lado e vamos para o assunto que o trouxe até aqui! Afinal, oque o senhor nunca viu na vida e gostaria que eu visse?
- Não sei bem explicar, doutor...melhor mesmo que o senhor veja com os próprios olhos.
O velho zelador puxou de uma sacola de pano algo que parecia um livro de capa dura, todo sujo, manchas num tom vermelho escuro, quase negras, um pano branco bordado a mão, uma espécie de véu, o envolvia. Na capa, escrito a mão, as iniciais ‘’DS’’ e logo abaixo, como que esculpida com um tipo de instrumento pontiagudo, a palavra ‘’Redenção’’. Era um diário, não um livro, como a capa fazia crer.
- Doutor, isso tudo ai é sangue...
- Como você pode saber seu Nildo?
- O cheiro...mesmo seco, o cheiro do sangue é muito forte para mim. O senhor sabe que eu sinto o cheiro de sangue a distância, é uma maldição que me acompanha desde que sai do abatedouro.

Givanildo Pereira da Silva, ou simplesmente Seu Nildo como era mais conhecido, natural de Ribeira do Pombal no estado da Bahia, assim como milhares de nordestinos sem trabalho ou qualquer outra perspectiva de uma vida melhor em sua terra natal, veio para São Paulo buscar sua chance de ouro quando tinha apenas dezoito anos. Deixou toda a família para trás. Ainda hoje, quando fala dos pais e irmãos não contém as lágrimas. Os pais de Givanildo morreram cinco anos após sua partida, num acidente, quando viajavam como bóias-frias na carroceria de um caminhão que os levava para o trabalho em uma fazenda numa cidade vizinha – ele dizia sempre que tocava no assunto:
- Pobre mainha, pobre painho – depois de um longo e doloroso suspiro ele continuava - só pude começar a mandar um dinheirinho para casa depois de quatro anos trabalhando por aqui. Reformaram a casa, compraram uma charrete e um burro, nada mais...não deu tempo.
Dos sete irmãos que havia deixado na Bahia, dois haviam morrido ainda quando crianças, por problemas relacionados a desnutrição. Quatro irmãos, com a ajuda do irmão mais velho, haviam se mudado para Campinas no estado de São Paulo e apenas o mais novo permaneceu na cidade natal.
Seu Nildo jamais voltou a Ribeira e só reencontrou os irmãos quando estes se mudaram para o interior paulista a dez anos. Ele queria voltar quando se aposentasse, viver em paz seus últimos dias, como dizia, plantar alguma coisinha, criar umas cabras e, finalmente, ser enterrado perto dos pais.
Era um bom homem - trabalhador, determinado, hábil falador, inteligente, apesar de ter frequentado a escola por três anos. Certamente teria ido muito mais longe se tivesse passado mais tempo com os livros. Não pôde, pois sua sobrevivência e a de sua família também dependia do baixo salário que recebia do trabalho como pedreiro. Trabalhava a semana toda, o dia inteiro num canteiro de obras, no sábado fazia bicos pela cidade e no domingo seu corpo já exausto pedia boas horas de sono.
Antes de trabalhar como zelador no edifício Santa Helena, trabalhou num abatedouro clandestino por dez longos anos, até que a vigilância sanitária o fechasse numa dessas batidas-surpresa. Ele não gostava de falar desse trabalho, não falava de sua vida nesse período. Parecia haver uma lacuna nestes dez anos, como se ele tivesse estado ausente, fora do ar.
Um amigo de forró falou sobre o trabalho de zelador no edifício Santa Helena e a vinte e poucos anos ele trabalha lá. Conheceu o avô e o pai de Klaus, quando a sala do psicoterapeuta ainda era um escritório de contabilidade.
- Prometo ao senhor que vou dar uma examinada neste diário, seu Nildo, mas agora tenho realmente que partir, disse Klaus.
- Ah! Doutor! Não esqueça, essas manchas ai...isso é sangue!
- Sim! Claro! Bem, não acredito que seja de fato sangue, mas para tirar qualquer tipo de idéia fantasiosa de sua cabeça faço questão de verificar, ok? Gostaria de saber também o motivo que o fez pensar que eu deveria ler esse material! Em que eu poderia ser útil? De qualquer forma, a explicação fica para outro dia!
Guardou o diário na pasta que carregava, despediu-se do zelador e pediu-lhe que trancasse a porta quando saísse.
- Até amanhã seu Nildo – encerrou o terapeuta

2 comentários:

_.:♥Naty♥:._ disse...

Law esse e aquelle livro qe vc me falou la na linha?o nome dele e esse mesmo?bjssss

Exilado disse...

Olá amiguinha! Entonces, essa não é a história do meu livro...é apenas um ''causo''...
A história do livro é outra...muito interessante diga-se de passagem!